Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página

Série destacará trajetória de mulheres do Ifap

Publicado: Segunda, 08 de Março de 2021, 02h06 | Última atualização em Segunda, 08 de Março de 2021, 12h58

A origem do Dia Internacional da Mulher não é de comemoração. O simbolismo da data se estabeleceu com muita luta, contestação e confronto, seja este no campo das ideias, ideologias ou mesmo o confronto físico. Ela surgiu a partir da articulação internacional de mulheres trabalhadoras e revolucionárias. Se, em um passado recente, tratou-se o oito de março com ênfase na rentabilidade que ele costuma trazer para o comércio, hoje a narrativa é outra. Qualquer um que olhe com atenção as mensagens dos anúncios postos em circulação pelas grandes marcas vai perceber que a história mudou.

Liberdade de ser quem se quiser ser, de ocupar o lugar que se quiser ocupar, e a exposição de estatísticas alarmantes como os casos de feminicídio – sim, foi preciso criar uma nova tipificação criminal para proteger mais e melhor as mulheres em nossa sociedade – são temas que têm dominado os debates em torno da data e que foram reconduzidos à pauta pela sororidade, organização e politização cada vez maior das mulheres.

Esse contexto mais amplo, no entanto, não deve nos fazer esquecer que a história dos livros é, em grande medida, reflexo das histórias individuais que muitas vezes passam por nós e não as notamos. Um caminho para entender como é crescer, estudar e trabalhar em nossa sociedade sendo mulher é ouvir seus relatos, perceber o que suas falas enfatizam, por onde passam mais rápido e em que mais se demoram.

É com esse intuito, o de ouvir, registrar e fazer ecoar, que nós vamos apresentar a você, a partir de hoje, a  série "História de vida de mulheres do Amapá: lembrar, contar e resistir". Nela conheceremos a trajetória de seis mulheres que fazem parte da comunidade ifapiana. Três delas são servidoras e três delas são estudantes. Todas desafiadas pela vida, desde cedo, para conseguir chegar onde estão hoje: tomando para si o poder de construir sua própria vida com independência.  

 Com você, a história da Carmem Ângela:

Sou Carmem Ângela Tavares Pereira, 44 anos, macapaense, solteira, mãe de dois filhos e duas netas. Fiz duas especializações – Docência do Ensino Superior e Docência da Educação Profissional – e atualmente faço mestrado profissional em Gestão Pública na UFPA. Desde outubro de 2011, sou servidora pública federal, no cargo de psicóloga no Ifap. Já atuei nos campi Laranjal do Jari e Macapá e exerço hoje minhas atividades no Campus Santana.

Minha história de vida e formação enquanto mulher, mãe e profissional foi marcada por diversos momentos felizes e tristes, que condicionaram minha maturação emocional e social. Ainda na infância e pré-adolescência, sofri abusos. Na época, mesmo sem compreender a gravidade do fato, senti o peso que é ser mulher numa sociedade ainda patriarcal. Este fato ficou no meu passado, porém, influenciou a forma de construir minha vida e ver o mundo.

Comecei a trabalhar com 11 anos de idade, por escolha própria, de doméstica. Foi meu primeiro emprego. Na época o trabalho infantil era culturalmente considerado normal. Não culpo ninguém, pois a falta de condições financeiras e sociais às vezes impulsionam as pessoas a buscarem sobrevivência de várias maneiras. As crianças são seres iluminados, eu estudava, trabalhava, mas sempre encontrei espaço para brincadeiras de "bandeirinhas" na rua de casa, de "elástico" na escola (quem tem mais de 40 anos sabe do que estou falando).

Um momento importante e de grande desafio de minha vida foi meu ensino médio. Aos 13 anos de idade decidi estudar Eletricidade, tinha um sonho de ser engenheira elétrica. Consegui me profissionalizar em Eletricista Predial pelo Senai e também me formei em Técnica em Eletrotécnica pela escola Graziela Reis de Souza. Eu era a única mulher de uma turma de 40 alunos e me lembro de certos acontecimentos que revelam o quão a mulher precisa lutar por respeito: ouvir de seus colegas de turma que sua nota alta, seu bom desempenho escolar, só foi possível porque você se envolveu com o professor.

Ainda nessa época, fui trabalhar como estagiária na CEA (Companhia de Eletricidade do Amapá). No primeiro dia de estágio, na apresentação, ouvi de meu chefe que eletricidade era coisa pra homem, que eu deveria estudar pedagogia. Passei dois anos na CEA enquanto estagiária. Um dia, falei para meu superior que eu queria ser contratada, pois muitos dos meus colegas homens já tinham sido, e recebi uma negativa.

Aos 18 anos, engravidei de meu primeiro filho. Os planos mudaram e decidi ser mãe solteira. Novos desafios tive que ultrapassar para trabalhar e criar meu filho. Por vários anos fiquei sem estudar. O sonho da faculdade era cada vez mais distante, mas logo percebi que o mercado de trabalho tinha mais respeito por mulheres de nível superior. Naquela época, no estado do Amapá, não havia Engenharia, então busquei fazer qualquer outro curso superior. Fiz dois anos de Administração de Empresa, porém, a faculdade era particular e as dificuldades financeiras me fizeram abandonar o curso. Desempregada na época, busquei emprego em lojas e escritórios, no entanto, embora nas entrevistas tenha sempre ficado entre as melhores, nunca me contratavam. Certa vez resolvi mentir, falei ao entrevistador que não tinha filho, que era solteira (sozinha). Consegui o emprego.

A vida segue, os planos mudam e os sonhos sempre renascem. Em 2005, ouvi no rádio sobre o vestibular para primeira turma de formação de psicólogos do estado. Me inscrevi e passei. Foram cinco anos de muita luta. Montei uma pequena lanchonete perto de casa, vendia lanches na faculdade e, mesmo com poucos recursos, parcelando as mensalidades que já eram parceladas, me formei na primeira turma de psicólogos do Amapá, em 2009. Em fevereiro de 2010, consegui meu primeiro emprego como psicóloga, trabalhei no Abrigo São José e Casa Fátima Diniz, e em outubro de 2011 passei no concurso público do Ifap.

O Ifap foi a segunda maior conquista social e profissional de minha vida. Amo ser profissional psicóloga, amo meu local de trabalho. O ambiente educacional possibilita que eu possa entrar em contato com diversas histórias de vida, diversos contextos humanos. Cada dia, cada ano que passa minha experiência se enriquece. No ifap, eu posso ajudar adolescentes assustadas, assim como um dia eu já fui, e posso contribuir para que mulheres e homens tenham uma vida pessoal e social mais digna, de valor e respeito.

Além de ser psicóloga em tempo integral no Ifap, também já atuei na gestão de programas e projetos. Fui gestora local do Programa Nacional Mulheres Mil, coordenadora do Napne (Núcleo de Atenção às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas) nos campi Laranjal do Jari e Macapá, coordenadora do SAE (Setor de Assistência Estudantil) no Campus Santana e desenvolvi projetos de extensão – “Ampliação do potencial humano em adolescentes em vulnerabilidade”; “Promovendo a qualidade de vida da pessoa na terceira idade no Vale do Jari”; e “Orientação profissional para o futuro do trabalho”.

Com o Programa Mulheres Mil, compreendi ainda mais o quanto a luta por igualdade de gênero é necessária. Ouvi muitas histórias parecidas com a minha. Mulheres que tiveram de superar seus medos pessoais, as dificuldades econômicas e toda uma cultura histórica de indiferenças e de violências.

Hoje tenho mais uma filha de 4 anos, sou mulher, mãe, avó, irmã, filha, amiga, e agora, sou noiva, além é claro de ser psicóloga, servidora pública e estudante de mestrado. Segundo Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Toda luta e aprendizado que passou e perpassa o mundo feminino e todo sofrimento e desafios sociais nos fazem compreender que nossa formação enquanto mulher é constante, que lutar contra todo tipo de violência ou exclusão social ainda é necessário.

Por fim, quero apenas agradecer. Agradecer a Deus pelo dom da resiliência a mim concedido. Agradeço a minha mãe Maria de Jesus Ubaiara Tavares por escolher me dar a vida, me protegendo e amando incondicionalmente. Agradeço às minhas irmãs, pois somos uma família formada por quatro mulheres fortes, guerreiras e livres, cada uma com sua história. Agradeço a todas as mulheres e homens do passado e do presente que me inspiram à vida, em especial minhas amigas e amigos do meu círculo social e do Ifap.

“Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores”. (Cora Coralina)

Diretoria de Comunicação - Dicom
Instituto Federal do Amapá (Ifap)
E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
Twitter: @ifap_oficial
Facebook:/institutofederaldoamapa


registrado em:
Fim do conteúdo da página